Com o advento do Renascentismo, onde nasce uma civilização fundada no individualismo prático, no naturalismo filosófico com aguçado gosto artístico e formas de educação do corpo por manuais pedagógicos, onde merece destaque a reflexão sobre educação dos gestos de Erasmo Rosterdã em A Civilidade Pueril. Nesta obra de 1530 e dedicada a um menino nobre, tratados de civilidade eram descritos a sim de serem fixados e aplicados para melhor condução da sociedade. Por esta obra, rege-se que o comportamento externo e a manifestação do interior por inteiro. Com o advento dos séculos XVI e XVII pautadas em uma nova concepção de higiene e pela aceitação de uma nova privacidade, essas regras vão sendo modificadas.
Com Montaigne ainda no período Renascentista, tem-se outra importante consideração acercado corpo e da natureza. Aqui o significado das expressões corporais que reflete a linguagem do corpo acarreta elogios ou sanções do grupo no qual está exposto.
O Iluminismo, conhecido como um forte movimento pedagógico e filosófico, onde as luzes da razão foram difundidas pelas Academias e pela Maçonaria, ocorre a criação da Enciclopédia, o mais representativo empreendimento da cultura por Diderot.
O desenvolvimento da ciência medica leva ao processo de racionalização do corpo e com Rousseau em o Emilio, o autor escreve sobre a educação então a apartir desse conhecimento de corpo, onde o corpo e os movimentos apesar de valorizados nos processos educativos, ainda são considerados elementos acessórios. Na obra o autor faz remissão a importância da higiene e criticas a medicina curativa.
Com Pestallozi a educação afetiva, dominadora das paixões, porém não repressiva ganha corpo ,uma vez que pretendia a aquisição da autonomia pela criança ainda que com claras aquisições de regras sociais. Entretanto uma educação voltada para a solução de problemas, jogos e utilização de objetos.
A expressão metafórica “corpo-máquina” foi utilizada por Descartes, que atribui a medicina conhecimentos e a materialidade do corpo. Prega também pelo controle e exercício das paixões.
A civilidade nos séculos XIX e XX deixa de ser ensinada nas escolas, que fora substituída pela ginástica e pela educação física. Ocorre aqui a criação da ginástica científica, baseada na higienização com modelos de corpos para a então sociedade burguesa. A preocupação com a saúde passa a ser papel do indivíduo e ao corpo cabe agora a organização com princípios de mecânica.
Para a educação de crianças burguesas era viabilizado além da preocupação com a higiene, educação rítmica e os sentidos. Já para a educação feminina a ênfase era a dança e linguagem. A Educação Física fundamenta-se na biologia e passa a não se restringir as escolas, mas a presença de atividades físicas surge com várias organizações de ginásticas desportivas.
Com Merleau-Ponty surgem reflexões acerca do Sistema Nervoso Central, ainda que inexistente a comunicação entre áreas das ciências. A cognição é então estudada para tornar claro o fenômeno do conhecer. A Enação enfatiza a dimensão do conhecer a partir da corporeidade. Somos seres corporais, ou seja, corpos em movimento. A mente passa a ser vista como o próprio corpo e cabe aos estímulos oferecer várias informações ao organismo para cada acontecimento.
É no movimento dos corpos que é feita a leitura de seu conhecimento e de sua cultura, e assim cabe o estudo do corpo nas apropriações da cultura escolar. Produções adquiridas com a escolarização como ler, escrever, contar e narrar entre outras são produções do sujeito humano e logo do corpo.
O currículo deve contemplar cuidados com o corpo além da gestualidade e viabilizado por diferentes disciplinas. Se nosso corpo traz consigo marcas sociais e históricas que devem ser lidas, logo o corpo já esta incluso na educação e este pensamento nos faz perceber como seres corporais.
Provocada pela mídia em seus discursos, é estabelecido então uma nova forma de cultura ligada à imagem do corpo que leva a preocupação inclusive com auto- expressão uma vez que este corpo é traço significativo da presença humana. Daí a necessidade de um currículo que contemple a compreensão da corporeidade como principio educativo com conexões, rupturas e múltiplas entradas que possibilitem a paixão pelo aprender.
A análise histórica acerca das questões relativas à evolução do conceito de corpo na educação possibilita ao educador uma visão mais ampla de assuntos que precisará ser contemplado em sala de aula. Anexar temas de discussão sobre a temática corpo no currículo escolar a de suma importância, pois como o texto mesmo estabelece a relação entre a influência social nos pensamentos humanos, caberá a escola em sua função social formar alunos com competências para discernir as informações que recebe. Cabe a esse sujeito do processo educativo, compreender a importância de corpo saudável, sem que esta saúde esteja atrelada a padrões de beleza impostos pela contemporaneidade.
A escola, cabe também a discussão destes padrões de beleza citados durante toda a exposição aqui realizada para que corrobore para a libertação de seus educandos do conceito errado de um corpo-maquina e da mecanização deste processo. É papel da escola sim focar em questões de saúde e mediar os processos necessários a aquisição e a manutenção desta saúde, todavia, sem perder o foco em questões sociais como inclusive de saúde pública de que este conceito de saúde criado na atualidade não é acessível a todas as camadas, e que se não é um processo democrático, deve ser algo revisto, reavaliado e repensado.
Estabelecer estas ligações é função da escola e de todos os envolvidos nestas mediações, pois se o corpo é modificado por questões culturais ao longo da evolução, pode ser perfeitamente discutido em todas as áreas de conhecimento em uma leitura que é bem mais interessante do que as regidas friamente pelos manuais frios e seguidos na escola. Adaptações curriculares levando para dentro da sala de aula questões realmente atuais, é uma necessidade para a manutenção da qualidade da oferta de ensino formando nos alunos consciências políticas e sociais de seu real papel na sociedade brasileira. Não atuando apenas como espectador de novas ideias criadas por pequenos grupos e seguidas pela maioria e sim transformando progressivamente a sociedade no qual está inserido.
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